
Quanto vale um carro parado na garagem?
26/03/2026
A propagação do incêndio entre veículos estacionados pode ocorrer de forma muito mais rápida do que se imagina. Dados apresentados pelo Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio (CB-024) da Associação Brasileira de Normas Técnicas indicam que, em determinadas condições, o fogo pode se espalhar de um carro para outro em cerca de sete segundos.
O embasamento do estudo foi apresentado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, durante o fórum “Energia Segura em Ambientes Residenciais e Comerciais”.
A análise teve como base estudos de investigação de incêndios em estacionamentos e mostrou como a proximidade entre veículos e fatores ambientais podem acelerar a propagação das chamas.
Investigação no Reino Unido descarta carro elétrico como causa de incêndio
De acordo com os dados apresentados, a taxa de propagação pode crescer rapidamente ao longo do evento. Em uma simulação baseada em ocorrências reais, o incêndio começa com poucos veículos afetados, mas pode alcançar centenas de carros em menos de uma hora.
Nos primeiros minutos, por exemplo, o ritmo de propagação é relativamente baixo, em torno de 0,3 veículo por minuto. No entanto, à medida que o fogo se intensifica e passa a envolver múltiplos automóveis, a velocidade pode chegar a 8,6 carros incendiados por minuto.
Em um dos cenários analisados, após cerca de 13 minutos de propagação intensa, o número de veículos atingidos poderia chegar a 432 unidades, o equivalente a aproximadamente 80% de um estacionamento com capacidade para 540 carros.

Especialista destaca propagação rápida entre veículos
Segundo o engenheiro Rogério Lin, especialista em proteção passiva contra incêndio e presidente da Associação Brasileira de Proteção Passiva Contra Incêndio, a velocidade com que incêndios podem se espalhar em estacionamentos está diretamente relacionada à proximidade entre os veículos e à quantidade de materiais combustíveis presentes.
Em apresentações técnicas sobre segurança contra incêndio em garagens e estruturas, ele destaca que os automóveis modernos concentram diversos componentes inflamáveis, como plásticos, espumas e combustíveis, elementos que podem favorecer o chamado efeito de propagação em cadeia.
Sendo elétrico ou não, fatores extras influenciam na propagação
Segundo Lin, quando um carro entra em combustão, o calor irradiado pode rapidamente atingir veículos vizinhos, iniciando novos focos de incêndio. Esse fenômeno tende a ser agravado em ambientes fechados, onde fatores como ventilação limitada e presença de vapores combustíveis podem acelerar o desenvolvimento das chamas.
O engenheiro também ressalta que o risco não está restrito a um tipo específico de motorização. Ele observa que incêndios em estacionamentos dependem principalmente da dinâmica de propagação do fogo, ou seja, das condições do ambiente e da carga de incêndio, e não necessariamente da tecnologia de propulsão utilizada pelos veículos.
Por isso, Lin defende que projetos de garagens e áreas técnicas considerem medidas de proteção passiva contra incêndio, como compartimentação, ventilação adequada, sistemas de detecção e estratégias capazes de limitar a propagação das chamas entre veículos.
Aeroporto de Londres Luton vira case de descarte de carro elétrico
Parte da apresentação também destacou conclusões de um relatório de investigação conduzido pelo Bedfordshire Fire and Rescue Service sobre um incêndio ocorrido no estacionamento do Aeroporto de Londres Luton, no Reino Unido, em 2023.
Após o incidente, surgiram especulações em redes sociais e na imprensa de que o fogo teria sido iniciado por um veículo elétrico. Entretanto, a investigação oficial concluiu que o incêndio teve origem em um veículo convencional movido a diesel. O relatório confirmou que o automóvel envolvido não era um híbrido leve, híbrido plug-in nem um veículo elétrico.
O documento também apontou que não há evidências de que a presença de veículos elétricos estacionados no local tenha agravado o desenvolvimento do incêndio.
Recomendações para reduzir riscos e fatores que alimentam o fogo
Entre os fatores que contribuíram para a propagação estiveram os ventos fortes e vazamentos de combustível dos veículos a combustão. Ou seja, o combustível aumentou a intensidade do fogo e facilitaram sua expansão entre os automóveis.
Na conclusão, o engenheiro destacou recomendações de segurança para instalações de sistemas elétricos, equipamentos de armazenamento de energia ou infraestrutura associada a veículos. Entre as orientações estão a instalação em ambientes ventilados, o uso de paredes incombustíveis e o afastamento de materiais inflamáveis.
Outra recomendação importante é a presença de extintores próximos, além da instalação de sistemas de detecção e alarme de incêndio no ambiente.
Em locais com maior carga de incêndio, é recomendado instalar sistemas de extração de fumaça e sprinklers. Também é preciso manter distância de estruturas como colunas e vigas que possam comprometer a integridade da edificação.
Por outro lado, os especialistas alertam: evite instalar equipamentos em ambientes confinados, áreas habitadas ou rotas de fuga. Eles também recomendam evitar a proximidade com líquidos inflamáveis, tubulações de gás ou ambientes com temperaturas muito elevadas.
